Para quem vê no Kung-Fu um processo rápido de partir pernas, braços e pescoços a eventuais adversários, talvez este texto pareça um despropósito. Como é que uma "arte" de "violência, de pancadaria", poderá ser, ou conter, um caminho para o Conhecimento, assim mesmo, escrito com letra grande? A pergunta não deixará de ser pertinente. Mas nem tudo o que parece é...
Se o Xá da Pérsia não tivesse sido derrubado do Trono do Pavão pelos fundamentalistas de Khomeini, não haveria, hoje, Kung-Fu em Portugal. Pelo menos o da escola Kung-Fu To'a, fundada no Irão por Mestre Ibrahim Mirzaii. O que dele sabemos, sabêmo-lo através do seu discípulo, Mestre Shahram Kasiri, que veio para Lisboa, fugindo a uma morte certa. Pertence ao movimento Bahai - mais do que uma religião, uma filosofia, baseada no pacifismo, no diálogo, na compreensão do outro.
Milhares de Bahai's foram - e ainda o são - assassinados pelos fundamentalistas iranianos. A alternativa era servir de carne para canhão, na guerra contra o Iraque - alternativa que não o era sequer para o Mestre Shahram, está bem de ver. Assim, procurou os caminhos do exílio e acabou por desembarcar em Lisboa. Sozinho, sem falar uma palavra de português nem de outra língua europeia. Como de costume, neste país, não se soube aproveitar a sorte que significava a presença de Shahram Kasiri. Durante os dois anos que permaneceu em Lisboa, viveu numa tenda, no parque de campismo de Monsanto.
Quem o conheceu, nele encontrou um amigo. Como poderia ser de outro modo com quem, tendo dois pares de sapatos, ofereceu um deles ao seu vizinho de acampamento?
Em Janeiro de 83, Mestre Shahram Kasiri fundou a primeira escola de Kung-Fu To'a em Portugal. Como conseguiu, é toda uma outra história de amizades, que permanecem firmes.
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Então, aconteceu uma dessas coisas que só é possível acontecerem entre nós. Existia, à altura, dependente do Ministério do Exército, uma assim chamada Comissão Directiva das Artes Marciais. Nunca se percebeu porque não existia, já agora, uma comissão directiva da esgrima, do sabre, ou do boxe, adstrita ao mesmo ministério... A CDAM estava, naturalmente, atenta. E exigiu que Mestre Shahram Kasiri fosse prestar provas. Provas de quê? Quem, de entre os membros da CDAM, tinha qualidade e capacidade para o "examinar" e decidir se sim, ou não, podia ter a sua escola de Kung-Fu To'a a funcionar?
A questão acabou por ser ultrapassada e conta-se aqui apenas porque um dia será necessário escrever a história da introdução em Portugal desta "arte marcial".
Outros e graves problemas pessoais se levantaram a Mestre Shahram Kasiri, para quem viver numa tenda, num parque de campismo, era o menos. Só não compreendia os empecilhos burocráticos, a falta de palavra, as armadilhas montadas por muitos que vivem das assim chamadas "artes marciais" e não para elas (é um mundo, este, muito complicado e, agora, sem rei nem roque, desde a extinção da CDAM, que fazia pouco e mal, mas sempre fazia alguma coisa...). A atitude da CDAM em relação ao Kung-Fu viria a modificar-se por completo, depois, com o conhecimento pessoal estabelecido entre o seu presidente e a associação. Ao fim de dois anos, Shahram Kasiri - para alívio de muitos - embarcou num avião com destino a Toronto. A semente, porém, estava lançada e em terreno fértil. Deixou quem desse continuidade ao seu trabalho, no nível até então atingido.
A partida do Mestre para o Canadá não quebrou os laços com a escola Kung-Fu To'a que criara. Pelo contrário, continua a ser o seu mentor espiritual, o seu guia - e a conferir graduações à classe mais avançada.
Aliás, num dos anos em que veio do Canadá a Lisboa para esse efeito ficaria retido no aeroporto, durante três dias, que isto de ser iraniano, nos dias de hoje, é mau passaporte... A situação acabaria por se resolver, junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas, no ano seguinte, Mestre Shahram já não veio: Em contrapartida, viajou até Toronto o actual responsável pela escola de Kung-Fu To'a, Guilherme da Luz, um dos quatro cintos vermelhos portugueses.
"As graduações, na nossa escola, são diferentes das outras. Durante os primeiros meses, o kungfukai não tem cinto nenhum. Depois há, por esta ordem, os cintos - shawl - verde, castanho, preto e vermelho, todos com uma faixa branca no meio", explica Guilherme da Luz.
As aulas estão a ser ministradas no Clube Atlético de Alvalade, em Lisboa, e nas instalações cobertas da Piscina Municipal dos Olivais, sendo frequentadas por 120 a 150 kungfukais. A passagem de um shawl a outro depende da dedicação de cada um. Em média, para se chegar a cinto castanho há que trabalhar o corpo e a mente durante ano e meio.
A grande origem do Kung-Fu situa-se nos templos da China como o de Shaolin, de que tanto - e tão mal... - se fala hoje, nos filmes made in Hong Kong ou made in Japan em que se caricatura, da maneira mais ignóbil, esta via para o conhecimento.
A maneira oriental de estar no mundo não é a nossa. Religião, filosofia e vida quotidiana são, ali, peças inseparáveis e não quadros soltos, como entre nós. A harmonia não tem fora nem dentro, não tem espaço nem tempo - é global. Este "segredo" parece perdido no ocidente, onde a vida, que é una, se reparte por tempos e espaços distintos. Aqui vai-se a um templo rezar, com hora marcada, como no dentista. E esquece-se que Deus está em toda a parte e em nós. E que o trabalho, intelectual ou manual, pode ser uma oração, assim se queira que o seja...
Outro dos problemas da mente ocidental consiste na dicotomia: O bem e o mal, o dia e a noite, o amor e o ódio. Maniqueísmo que não existe no oriente, onde o yin e o yang formam um círculo e cada um destes aspectos tem o outro em potência.
Mestre Ibrahim Mirzaii, médico excelente, filósofo venerado no Irão pré-Khomeini - apesar de recusar repetidos convites do rei dos reis para ensinar Kung-Fu To'a às suas tropas de elite -, esteve na China, clandestinamente, absorvendo os conhecimentos de Kung-Fu, transmitidos em segredo nos tempos de Mao Tse-Tung. Foi, depois, para a Índia, em busca de mais saber. No regresso, fundou a primeira escola de Kung-Fu To'a, que se distingue dos outros estilos por, diz Guilherme da Luz, ser "mais moderno, mais adaptado aos nossos dias, sem perder as raízes tradicionais". "São mesmo bastante tradicionais", insiste, "tanto no método de ensino como nas exigências, nos exercícios, nas atitudes em relação ao outro".
O Kung-Fu assume-se como detentor de uma filosofia própria, o sensero, que, diz Guilherme da Luz, "é um termo tão rico que se torna difícil enquadrá-lo numa definição, mas que se poderá reduzir assim: Aprender a dependermos apenas de nós mesmos".
Mestre Shahram dizia: "Defende-te de ti próprio, pois és o teu principal inimigo", recorda o actual responsável pela escola To'a portuguesa. "E fazia questão em salientar que o Kung-Fu é a via, ou caminho, da inteligência". Um caminho para onde? "Começa numa arte de luta e acaba na nossa própria realização nesta vida", diz Guilherme da Luz, com a convicção de quem sabe o que diz.
Na realidade, só as idiossincrasias ocidentais, falando em termos genéricos, permitem ver no Kung-Fu, ou em qualquer das outras ditas "artes marciais" (o erro começa logo neste baptismo errado), uma ginástica ou uma técnica de autodefesa, útil em caso de sarilhos. Esses são os aspectos menores, as facetas menos importantes, de um todo muito mais complexo: A relação harmoniosa do homem em si, do homem com os outros, do homem com a natureza e do homem com o cosmos.
O Kung-Fu To'a é tanto, ou tão pouco, quanto isso.
[Texto retirado da revista "DN magazine", nº 156, 24 de Setembro de 1989]