O Kung-Fu é uma arte marcial chinesa que nasceu de uma grande amálgama. Há o Kung-Fu que foi criado no templo de Shaolin, há o que tem a ver com o budismo, o que tem a ver com o taoísmo e também o que tem uma vertente de confucionismo, mais ligado aos clâs e às obediências.
O Kung-Fu mais conhecido, físico e externo, teve origem no templo de Shaolin. Contudo, o Kung-Fu tem uma origem mais subtil que vem da Índia. No templo de Shaolin quase só viviam em meditação, não ligavam muito ao corpo. Só passaram a ter movimentos mais respiratórios e mais físicos quando um monge budista vindo da Índia trouxe para a China o budismo Zen. Dando origem, assim, às artes marciais.
Existem diversos estilos de Kung-Fu. Um deles é o Kung-Fu To'a, que é um estilo recente, criado no final dos anos 60, por um iraniano. Este Kung-Fu é uma reunião de vários estilos de Kung-Fu, de pensamento místico indiano e de movimentos da ginástica persa, Ele junta o conhecimento científico e o conhecimento esotérico de uma maneira muito profunda e muito intensa.
Além de existirem diversas escolas de Kung-Fu To'a, também existem escolas que criaram o seu próprio estilo de Kung-Fu To'a, que é o caso da escola onde lecciona o Mestre Guilherme Luz (um dos grandes implementadores do Kung-Fu em Portugal), em Lisboa. Nessa escola pratica-se Kung-Fu To'a à Flor de Lótus.
O Kung-Fu To'a à Flor de Lótus preconiza o Kung-Fu como evolução e expansão da consciência e da mente. Ele tem uma estética muito própria e, tal como acontece com outras artes marciais, a expressão física é muito interior, como se fosse um bambu no vento. O Kung-Fu To'a à Flor de Lótus acrescentou alguns aspectos ao Kung-Fu To'a que existia, tornou-se mais abrangente em termos de filosofia. As alterações devem-se ao facto de ser uma modalidade criada por iranianos para iranianos e que, por isso, não se enquadrava na realidade portuguesa. Quando começou a treinar, Guilherme Luz teve de "adaptar o Kung-Fu às pessoas, porque o Kung-Fu estava muito ligado ao conceito de obediência e os portugueses não gostam de obedecer". E continua, "este é um Kung-Fu muito mais amigo, eu faço o papel de mestre, mas eu sou um companheiro de viagem, preciso dos alunos para evoluir tanto como eles precisam de mim". Quando criou a escola, Guilherme Luz puxou mais para o lado taoísta, no qual tudo é mais natural. Esta escola funciona em função dos alunos, ao contrário do que se passava anteriormente, em que os alunos é que viviam em função da escola.
O Kung-Fu To'a à Flor de Lótus está vocacionado para pessoas que estão
numa fase da vida em que têm de decidir que rumo vão tomar. Este Kung-Fu
pretende ajudar a escolher o rumo certo, uma vez que "as pessoas, por
causa da sociedade em que vivem, esquecem muito a voz interior e seguem
caminhos que não se adequam à sua vocação e depois ficam infelizes",
conta Guilherme Luz.
Kung-Fu e a espiritualidade
Cada aula dura cerca de 2 horas. Começa-se com um trabalho muito forte a nível físico, muita flexibilidade, muita firmeza e muita concentração. Depois passa-se para as técnicas e termina-se com artes mais livres, dando espaço à expressão. "Fazemos estes três aspectos: O corpo, a ciência e arte, porque quando estamos a treinar está ali a nossa vida toda", explica Guilherme Luz.
O Kung-Fu é muito físico e muito marcial, mas isso não é o mais importante, isso é apenas uma base para algo muito maior. Para Guilherme Luz "há pessoas que ficam nas bases, não evoluem, porque passar para algo superior implica uma transformação muito grande, implica saber que os papéis que desempenhamos na vida são muito relativos, implica sobretudo uma espécie de morte para as coisas que são transitórias nesta vida".
O misticismo e a espiritualidade exigem uma entrega total. E para alcançar os seus níveis mais profundos são necessários três factores, de acordo com Guilherme Luz: Saber viver, saber amar (no sentido de saber relacionar) e saber morrer.
O Kung-Fu é arte marcial e tudo o que é arte implica um refinamento e quando se vai ao fundo nesse refinamento está-se mais próximo da espiritualidade. Por isso quando uma pessoa refina imenso "chega à espiritualidade naturalmente porque está a criar, está a refinar, está muito próxima do criador e então aí é que é espiritualidade", conclui Guilherme Luz. E isso acontece em qualquer arte, sempre que alguém esteja a criar e a refinar está muito perto da espiritualidade.
O Kung-Fu evolui através da forma que os seus praticantes vivem, daí que Kung-Fu e vida sejam a mesma coisa.
[Texto retirado da revista "Beija Flor Natural", nº 25]