Reflexões sobre a preparação para a gala de Kung-Fu

Muitos perguntam-se como é que se devem preparar para a gala (e para a vida!...). Vou, dentro dos próximos dias, dissertar um pouco sobre o assunto e nas variadas vertentes. Se vos fizer sentido, óptimo, se não fizer sentido, óptimo na mesma.

O corpo

Vamos então começar pelo corpo, que é o que vai ser mais estimulado e mais usado. Como é que este funciona?... a pilhas! Que pilhas usar? É exactamente neste ponto que me vou focar por agora: como e quando comer o quê.

Como comer: Comer não pode nem deve ser alvo de culpas ou obrigações, antes de prazer e vontade. Isto quer dizer que se nos apetecer comer um chocolate, não nos devemos proibir por sabermos que este faz mal, nem culparmo-nos por o termos comido!... A comida é energia, seja ela de que origem, É ENERGIA e deverá ser assim que a devemos sentir! Devemos procurar a energia da comida que ingerimos e analisar o até que ponto esta é compatível com o nosso metabolismo ou com o nosso organismo. Devemos procurar usar apenas aquilo que precisamos de todas as variantes energéticas de determinado alimento e aquilo que não precisamos ou rejeitamos ou transformamos! Bom, isto é cada alimento tem uma variedade enorme de nutrientes e frequentemente de toxinas também; aquilo a que me refiro é aproveitar os nutrientes de que se precisa e transformar o restante do alimento em algo que possamos absorver ou rejeitar sem que nos prejudique!... Isto faz-se procurando o prazer de comer e mastigando bem os alimentos, envolvendo-os connosco, com a nossa saliva, suco gástrico, etc...

Quando comer: deve-se comer apenas e durante a sensação de fome. Quando esta sensação desaparece, dever-se-á parar de comer. Isto traz uma complicação: come-se pouco de cada vez e muitas vezes ao dia o que é um tanto incompatível com as exigências sociais... "nem tanto ao mar, nem tanto à terra", devemos procurar o meio termo entre as diversas possibilidades. Se não nos apetece comer, não comemos, se podemos comer e temos fome, devemos comer, se não podemos mas temos fome... então temos de baixar o nosso metabolismo de forma a consumir menos energia para chegarmos à situação de podermos comer e fazê-lo com prazer e não sofregamente. O ter-se fome e não se puder comer é a altura mais subtil da nossa atitude perante a alimentação. Frequentemente esta situação gera uma ansiedade muito forte que nos "cega" e nos altera o raciocínio... Saber não comer é igualmente (ou mais) importante do que o saber comer e jogar com estes diversos timings faz parte da aprendizagem individual de cada um de nós sobre nós próprios. É imperativo consciencializarmo-nos destes pormenores e analisá-los individualmente e num todo para compreendermos as respectivas interrelações e aprendermos a usá-las em benefício de todos.

Comer o quê: esta é a questão que mais preocupa as pessoas nos últimos tempos, por razões várias (e ultimamente mediáticas)... não quero de forma alguma salientar que determinado regime alimentar é melhor do que outro, ou que determinado alimento faz bem e outro faz mal... Todos os alimentos são bons, dependendo da consciência do como são ingeridos!

Deve-se comer o que está mais "à mão", partindo do princípio que o homem é um animal no seu habitat natural... resumindo, sementes/grãos de várias qualidades, legumes da época, fruta da época e do zona, animais de pequeno porte, etc... Cada alimento tem uma energia própria de base e esta é modelada através da preparação de uma refeição. A combinação de alimentos/energias pode enfatizar ou camuflar determinados aspectos do nosso ser físico, psíquico ou espiritual. Não há combinações universalmente correctas, há sim aquelas que melhor se adaptam às respectivas diferenças entre todos nós.

Assim, sugiro que, além dos respectivos hábitos alimentares de cada um de nós, se procure uma alimentação direccionada para a gala que se avizinha. Vamos procurar dar prioridade à ingestão de grãos/sementes integrais, valorizando os diversos cereais integrais (arroz, aveia, cevada, trigo, etc) e os legumes secos (grão de bico, feijões diversos preferencialmente pequenos, ervilhas, lentilhas, favas, etc). SE SE SENTIREM BEM, podem também fazer um pequeno jejum aos alimentos de origem animal (carne, peixe, leite e derivados, ovos, enchidos, etc) 1 ou 2 dias antes e no próprio dia da gala. Depois podem voltar ao regime alimentar que anteriormente praticavam sem que tenham qualquer problema de má nutrição...

De minha experiência tenho a dizer que sinto o corpo muito mais disponível à vontade de praticar bom kung fu (em todos os sentidos).

Despertar o corpo

Na sequência deste tema, vamos à parte 2: dar uso às pilhas!...

Ora como já referi da primeira vez, é importante que tenhamos consciência de que as pilhas não são todas iguais e que a escolha destas influencia muito o nosso comportamento quer físico, quer mental ou espiritual. Imaginemos um bêbado: a quantidade de álcool que ingeriu deixou-o num estado de descontrolo muscular e de desresponsabilidade quer mental quer espiritual e as drogas têm efeitos semelhantes... E a comida, não actuará num nível ainda mais profundo, mais subtil, num subconsciente psico-físico?

Sim, sem dúvida, mas não nos limita como as drogas ou o álcool, permitindo-nos alterar a energia base/raiz dos alimentos e trabalhá-la. Ora é sobre isto que se vai pensar: trabalhar a energia guardada ou o como e quando mexer o quê.

Como certamente deverão saber, existem várias formas de estimular o organismo e de excitá-lo (uma delas é o café, mas este não vem para aqui chamado...), mas sejam elas quais forem, a origem é sempre a mesma: o cérebro (ou a mioleira, como quiserem). É o cérebro que comanda as operações, TODAS! Deverá ser então aqui que começa tudo.

Trabalho da energia / como mexer: o mexer ou mover um membro do nosso corpo não deve ser executado de forma displicente ou irresponsável. Os movimentos que fazemos influenciam os que iremos fazer e encadear uma sequência de exercícios pode ser bastante benéfico para o organismo e para a mente (consequentemente para o espírito...).

Passando à prática, que exercícios devemos privilegiar? Todos aqueles em que tenhamos facilidades em 1º lugar e depois os que não tendo facilidades, não nos são difíceis, e por aí fora. É importante ter em conta que um mesmo exercício pode ter vários níveis de dificuldade e que o praticante deve saber quais são os seus, para que não haja lesões ou problemas à posteriori.

A origem da energia - ao contrário do que muitos dizem, eu acho que a origem da energia está no cérebro, não por ser este a guardá-la, mas por ser este a gerí-la! Segundo a tradição chinesa (e de kung fu...), a energia do corpo reside no bom uso da anca e consequente relação com o controlo do centro de gravidade. A anca serve de intermediário entre a parte mais terrena do corpo (pernas e pés) e a parte mais "aérea" (cabeça). A boa conexão entre estes dois pólos permite um bom fluir energético entre a terra e o céu, tornando-nos bons condutores ou antenas entre o mundo material e espiritual (mais à frente se falará disto)... os exercícios (genéricos) que estimulam uma boa postura de ancas e consequentes relações com o resto do corpo são: abdominais vários (preferencialmente que não sejam incómodos para a coluna!... procurar o fácil!), cavaleiros de ferro (fazem a ligação entre a terra e a anca), exercícios tipo flexões de braços (que fazem a ligação entre a anca e a força de vontade!), deslocamentos vários que envolvam alguns aspectos dos que já se falaram...

A importância da respiração - os "mestres" de yoga conseguem através de exercícios respiratórios energizar todo o organismo, corrigir posturas, etc. Contudo, geralmente não estimulam uma área do cérebro relacionada com a interacção com o outro, limitando-se ao respectivo eu. Ora kung fu É uma forma de comunicação, de estar na vida e o comunicar com o outro é fundamental. Assim, não podemos fazer respirações para nós na esperança que o outro se resolva! Por outras palavras, tanto o yoga como outras "doutrinas" ensinam que o movimento deverá ser realizado em função da respiração, o que está muito correcto como forma de estudo interior, de pesquisa. Para estarmos disponíveis a qualquer situação e podermos agir/interagir sem dificuldades e movermo-nos sem prisões e espontaneamente, é a respiração que deverá estar condicionada ou em função (não presa!) do movimento. Sugiro a seguinte experiência (entenda-se como 1 ciclo respiratório o inspirar e o expirar consecutivo): ciclos respiratórios lentos e profundos em contraponto com ciclos respiratórios pouco profundos (em termos de amplitude e não de resultado) e muito rápidos... os primeiros oxigenam o cérebro, os segundos o corpo... Os primeiros deverão ser executados antes dos movimentos, para que o cérebro tenha oxigénio para comandar as operações, os segundos aquando do movimento, para que não falte oxigénio ao corpo na combustão energética. O 1º tipo de ciclo é de fácil compreensão e realização, pois todos nós o fazemos desde sempre, o 2º já é muito mais subtil. O 2º tipo de ciclo respiratório deverá jogar com explosão energética simultânea/consecutiva com a expiração e com a relaxação onde naturalmente se inspira. O problema está na consciência do relaxar após a explosão energética, pois há a tendência para se ficar com a respiração presa! Exercício para desenvolver e estimular este 2º tipo de ciclo respiratório (pouco profundo e muito rápido): numa posição sentada e confortável concentrar APENAS na expiração, vazamos os pulmões de ar (totalmente) criando alguma tensão e jogamos com o relaxar e expirar, relaxar e expirar, relaxar e expirar; na expiração procura-se a explosão energética dirigida (por exemplo uma vocalização ou um matô, mas numa aplicação simples) e na relaxação, não no vamos preocupar em inspirar, pois se estivermos com os pulmões VAZIOS, ao relaxarmos inspiramos automaticamente e é com esse inspirar automático que deveremos jogar, trabalhar e usar; assim, com matôs será algo como em cada matô há uma expiração e entre cada matô há um relaxar com inspiração automática... - espero ter sido claro... em caso de dúvida perguntem!...

Trabalho de energia / quando mexer: o timing no kung fu é responsável pelo sucesso ou fracasso de técnicas ou vontades. É o quando se mexe que determina se o praticante está sintonizado ou apenas espera pacivamente... este tipo de conhecimento nasce da experiência directa do praticante. Por mais que lhe seja dito "agora", é ele que controla a sua acção, é ele que se mexe. O que é que o impede de se mexer no instante consecutivo ao "agora"? Provavelmente a dispersão da atenção é a responsável. Resolver esta questão é a disciplina que TODAS as doutrinas disto ou daquilo no fundo pretendem, sejam religiosas ou não, físicas ou mentais ou mesmo! Mas resolver para quê, que fazer com a atenção após este lapso temporal estar dissolvido? Esse é o principal problema, pois se não há objectivo no para além, quando lá chegamos, dispersamos... e voltamos à estaca zero (bem, não totalmente...). Que fazer então com a atenção? Simples, vamos direccioná-la para o que está a acontecer connosco, aqui e agora, sempre (...que possível... SEMPRE). Isto é extremamente mental, mas é importante ter consciência destes pequenos pormenores (há muitos mais, mas não me quero estender...).

Na Gala, não vamos estar a olhar para o ar, nem a coçar o rabo (hehehe), nem a baloiçar nas pernas quando é para estar firme ou para manter a postura. O saber quando mexer ou mover nasce no saber estar parado e activo ao mesmo tempo, parado e consciente dos quandos que se passam à nossa volta.

Saber quando mexer é saber quando não mexer, e isso todos nós sabemos, simplesmente frequentemente não ligamos. O não mexer estimula o mexer... dá-lhe força de vontade!

Trabalho da energia / mexer o quê: para que a energia se desenvolva de forma harmoniosa, é importante que os movimentos envolvam todas as partes do corpo simultaneamente. Só assim se poderá transportar energia dos pés para as mãos (da terra e raízes para as folhas e ramos da árvore que nós representamos) com o mínimo de esforço ou desperdício. Podemos fazer exercícios localizados, desde que compensados com outros generalizados. Os exercícios de força deverão ser seguidos de exercícios de extensão muscular, para que não se acumulem tensões. Em exercícios deve-se coordenar os movimentos com a respiração através de métodos como os acima referidos, ou outros, mas copm o ênfase em NÃO PRENDER A RESPIRAÇÃO, pois esta prisão resulta em quebra do fluxo de energia. De uma forma simples, deve-se mexer o corpo na sua totalidade em todos os instantes de prática, seja ela de preparação física, execução de formas ou interacção com os demais, seja na aula de kung fu, na rua com os estranhos ou em casa com a família. Todo o corpo deverá estar envolvido no movimento, na acção, na vontade. Exercícios de equilíbrio activo do corpo (tipo pinos ou outras inversões sobre a cabeça, posturas só com um ponto de apoio no chão - pé, etc) são excepcionais para este tipo de conciência!

A mente

A mente... é algo de estranho e complexo, de mecanismos obscuros e sombrios... mentira! A mente é clara como a água, é branca e preta, é o sim e o não!... as cores pertencem ao espírito (já lá iremos...)!...

Todo e qualquer movimento voluntário que fazemos está dependente do cérebro e respectivas ramificações. Ora... kung fu é todo um conjunto de movimentos voluntários aos quais atribuímos um certo sentido e funcionalidade... é sobre isto que hoje se vai PENSAR: como e quando pensar o quê. Como pensar: bem, huummm, deixem lá ver.... pois, é isso, concordam? Quando pensar: correcto, está tudo dito! Pensar o quê: sim, claro que sou a favor das flores!

Pois é, não faz sentido espalmar assim este tema. O caminho terá de ser outro. Leonardo da Vinci dizia "La Pittura é una cosa mentale...", o yoga, o tai chi, o chi kung e outras escolas são mentais. As escolas secundárias são mentais, as relações entre uns e outros têm bases mentais... então, o que é e como funciona a mente?

Não creio haver uma resposta certa ou científica para esta pergunta, no entanto, arrisco a seguinte "tese": a mente será aquilo que nos faz mover no dia-a-dia, que nos hipnotiza com as rotinas, que nos mantém sempre no mesmo lugar, que nos impede de explorar inconsequentemente, que nos torna responsáveis. A mente é um reflexo daquilo que cria, mas mais completo. A mente não se vê senão nos resultados da sua acção.

A mente é então (segundo esta minha "tese") a ligação entre o corpo e o espírito. É um mecanismo complexo e rico que gere as energias do céu e da terra, fazendo de nós a antena perfeita com o cosmos... A mente funciona muito na base do sim e do não, do branco ou preto, na base do equilíbrio entre os opostos, do faço ou não faço e das respectivas justificações. A matemática como hoje se conhece é um reflexo perfeito da mente humana actual de uma forma geral, em todos os indivíduos. A matemática resulta do somatório de pensamentos de diversos indivíduos que desenvolveram um sistema/linguagem universal, sem falhas. Assim a mente humana actual, de uma forma geral, tem um consenso de actuação, de leis pelas quais gere o organismo com o qual se identifica. Toda a estrutura social é composta segundo regras que servem de referência de comportamento à mente de determinado indivíduo. Injectadas estas referências na mente, esta não tem mais que fazer senão verificar se determinada acção está dentro das premissas e declarar o sim faço ou o não faço, e respectivas justificações estando elas dentro ou fora dos limites referenciados.

Como preparar a mente para a gala que se aproxima? Isto já é outra questão, vai depender de cada um e dos respectivos problemas. Os mais comuns são: será que vou conseguir fazer alguma coisa em frente a tanta gente que vai estar a olhar SÓ para mim? ou mas eu engano-me sempre naquela parte, é melhor não fazer... se calhar nem vou!...

Muitas destas questões só se resolvem com o espírito, pois a raiz é muito mental. Qual é a diferença entre muita e pouca gente e onde é que reside essa diferença? A diferença é apenas mental e é aí que reside, porém, as pessoas não vão estar SÓ a olhar para ti, nem sequer te vão julgar; muitas até vão estar distraídas com a mosca que lhes pousou nas pipocas. Os erros que forem cometidos não são crimes nem fazem mal a mais ninguém (esperemos) senão a nós e apenas se os deixarmos.

Vergonha de fazer má figura? Vergonha tenham aqueles... (completar a frase com o que se achar apropriado...) Má figura: sentimento gerado por excesso de ego... Vergonha: sentimento gerado por rebaixamento do ego relativamente a outros egos "superiores", a vergonha é um sentimento gerado apenas pelo indivíduo em questão, os outros apenas podem indicar esse caminho, a vergonha é uma reacção de desprezo relativamente ao ego.

Pondo a questão de outra forma, se eu (ou tu) sou (és) capaz de executar correctamente uma sequência de movimentos sozinho, o que é que me (te) impede de a executar correctamente acompanhado ou observado? NADA... no fundo, não existe uma única razão para este impedimento. Porquê? Porque ninguém nos pode dizer como mover os braços ou as pernas, podem sugerir os movimentos e até nos podem mover os braços ou as pernas, mas para sermos nós a fazê-lo estamos sós, aqui, agora e sempre. É a vontade que comanda essa acção.